Por que as coisas mudaram para pior?

Criança indo para escola

Nasci em Évora no início dos anos 70 e cresci num bairro da cidade. Nessa altura ia para a escola a pé e às vezes com um monte de amigos, e íamos na brincadeira e na galhofada. Não tínhamos Rendimento Social de Inserção, não havia Google nem telemóvel. As pesquisas para os trabalhos de casa (famoso TPC) eram feitas na biblioteca da escola ou na biblioteca pública… e tínhamos que fazer isso em absoluto silêncio. O trabalho era escrito à mão e se estivesse igual ao do livro, estávamos bem lixados. Tínhamos sorte se não levássemos uma reguada ou um puxão de orelhas. Na escola havia o gordo, o trica-espinhas, o amostra de gente, o caixa de óculos, o zarolho, o escarumba, o cara de parvo, o pernas de rã, o narigudo, o bate orelhas, o labrego, o marrão e muitos outros. Todos eram gozados, às vezes até andávamos à porrada, mas depois ficava tudo resolvido e a amizade continuava. Era tudo na base da brincadeira e ninguém se queixava de Bullying. Existia o valentão, mas também existia quem defendesse os mais fracos. As raparigas levavam uns apalpões e respondiam com umas bofetadas e ninguém ia fazer queixa de ninguém. As nossas férias começavam antes da Feira de São João e só voltávamos para a escola em meados de setembro. Nas férias íamos à pesca para qualquer barragem, jogávamos à bola pela hora do calor ou íamos às piscinas o dia todo. Pião, berlinde, cabra-cega, lencinho da botica, escondidas e apanhada eram outras brincadeiras que deixavam a rapaziada animada. Cinco escudos davam para comprar um bolso cheio de rebuçados, comíamos uns gelados da Fá, pastilhas Super Gorila e batatas fritas Pala-Pala. As Chiclets também eram baratas e para ficar coloridas colocávamos bicos de lápis de cor e mastigávamos aquilo tudo… e ninguém ficava doente. Nessa época ser gordinho ou gordinha era sinal de saúde e se fosse magro, tínhamos que tomar umas vitaminas para abrir o apetite. A frase “já mãe” era para ficar mais uns minutos a brincar na rua e não para ficar agarrado ao telemóvel ou ao computador. Colecionava-se os cromos da bola, latas de bebida vazias e calendários de bolso que se pediam de empresa em empresa. Nessa altura, se respondêssemos mal a um professor ou a uma pessoa mais velha, os nossos pais pregavam-nos logo uma bofetada nos queixos e ninguém necessitava de ir a um psicólogo por causa disso. Nessa época as maiores aventuras eram tocar à campainha e sair a correr, fazer carros de rolamentos e esfolar os joelhos e os cotovelos. O único canal de televisão, depois das aulas da Telescola, passava o Pica-pau, o Tom & Jerry, o Batman & Robin, os Flintstones, a Heidi, a Abelha Maia, o Conan o rapaz futuro e outros desenhos que não deixava ninguém traumatizado. Éramos felizes em comparação com este mundo de hoje onde tudo é bullying ou preconceito, onde as pessoas dão mais valor aos amigos do Facebook (que nem conhecem) do que aos amigos de verdade. Nessa altura, os nossos pais eram presentes, a educação era dada em casa. Chegar com algo que não era teu, desrespeitar alguém mais velho ou meter-se na conversa dos adultos (somente um olhar bastava), e lá vinha a famosa e terrível frase “quando chegarmos a casa a gente conversa”. Podíamos ir praticamente para qualquer lugar sozinhos, mas tínhamos hora para chegar a casa, 10 horas da noite, era 10 horas e nem um minuto a mais. Tínhamos que levantar para os mais velhos se sentarem e não se tratava ninguém mais velho por tu. Fico a pensar e a perguntar-me, quando foi que tudo mudou e os valores se perderam e se inverteram dessa forma?

Publicações relacionadas

Leave a Comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.